O lançamento de parte da obra do russo revolucionário Aleksandr Bogdanov em edições brasileiras, com os livros Ensaios de Tectologia (2024 [1913]) e Estrela Vermelha (2020 [1907]) nos convida a reposicionar historicamente a teoria geral dos sistemas (von Bertalanffy), a cibernética (Wiener, 2017 [1944]) e a teoria da complexidade (Morin, 2015), tendo acesso tardio, porém crucial, à fonte pioneira dessas disciplinas na obra do russo nascido em 1873. E ainda desfrutar da visionária síntese que este revolucionário realizou entre sua proposta científica, denominada de “Ciência Geral da Organização”, ou “Tectologia” - originada do termo russo tekton (construtor)- com a economia política de Marx e ainda com as teorias científicas do fim do século XIX, em particular com a epistemologia do “empiriocriticismo” (Bogdanov, 2016). Tais ideias foram violentamente atacadas, sob o selo de idealismo, por seu antigo companheiro do Partido Bolchevique, Vladimir Lênin, em seu clássico Materialismo e Empiriocriticismo (Lenine, 1975 [1908]), origem de uma diatribe teórica que evoluiu para uma disputa política pela liderança partidária, o que levou a obra de Bogdanov ao ostracismo na URSS no período pós-Lênin (Rumyantseva & Steila, 2023). Durante o período estalinista, a cibernética foi proscrita e considerada uma “ciência burguesa”. Porém, com a morte de Stalin e com o início da corrida espacial, a cibernética se tornou o próprio jargão científico da URSS, embora sem ainda a reabilitação da obra de Bogdanov, então fartamente consumida pelos engenheiros russos em edições clandestinas. A recuperação contemporânea da obra desse soviético revolucionário, líder da facção do Proletkult, o Ministério da Cultura do regime revolucionário de 1917, nos traz positivas alternativas teóricas quando, neste início do século XXI, estamos diante de uma Grande Transformação da base econômica com sua inteira digitalização e confrontamos o desafio de realizar uma crítica da “economia política dos dados”, ou “economia política das plataformas”, associada a questões como colonialismo digital, extrativismo de dados, precarização e invisibilização do trabalho digital, e finalmente o crescente uso da IA nos processos produtivos. E este aproveitamento teórico se deve à tese, colocada no início de sua Tectologia, sobre a proeminência do “ponto de vista organizacional”, isto é, a proposição de que todo problema tecno-científico pode ser traduzido em termos organizacionais. Bogdanov foi o primeiro autor que leu a obra de Karl Marx como uma teoria organizacional do trabalho, e observou que o trabalho pode ser visto como motor organizatório e como redutor da entropia. Com esta percepção, ele nos dá a chave para sair do modelo produtivista geralmente associado ao marxismo ortodoxo para um modelo organizacional, encarando o capitalismo como um sistema que se autoproduz (autopoiético), porém de forma autocrática. Este artigo se propõe a mostrar como essa mudança de perspectiva nos permite resolver os dilemas correntes que surgem com a informalização da economia capitalista e o aparecimento da “mercadoria-conhecimento”, enquanto capital-fictício. E dá o mote definitivo de resistência dos trabalhadores frente a esse sistema cada vez mais predatório de seus espaços de convivência: a luta para se organizar em formas não precárias de existência.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)